Espiritualidade Carmelitana A Experiência Religiosa em Edith Stein

Conferência da Dra. Ângela Ales Bello
Doutora em Filosofia Contemporânea
Pontifica Universidade Lateranense. Roma Itália.

--------Edith Stein escreveu este texto por volta de l930 a 31 quando lecionava no Colégio das Dominicanas. Sua preocupação neste texto é refletir filosoficamente sobre o ser humano: sua estrutura e a problemática de sua consciência.

--------Ela começou com a pergunta. O que é o ser humano? E a resposta que encontrou foi que o ser humano é formado de três aspectos: corpo e a alma, mas a alma se distribui em aspectos psíquico e espiritual, sendo que o psíquico se compõe de conteúdos psíquicos como desejos, tensão, reações ao mundo do corpo exterior, e a parte espiritual é a parte com a qual tomamos posições válidas e culturais. Já estamos no reino da liberdade. Quando falamos da pessoa humana, pensamos em termos universais, isto é, naquilo que se aplica a todos, mas a alma, ao entrar no mundo, se coloca no plano da individualidade. Entre estes dois aspectos da alma, a saber, a alma psíquica e o espírito, há a chamada .alma da alma., aquilo que acompanha a nossa pessoa em toda a nossa existência. Esta alma da alma é um núcleo simples, não formado de partes.

--------Explicando melhor
- Ser humano é complexo, como complexo é o mapa de uma cidade grande e para compreendê-la se faz necessário um mapeamento. Precisamos fazer um mapeamento também da alma e ver suas estratificações.
- Dissemos que o ser humano tem um corpo e uma alma e que a alma tem um núcleo, a alma da alma, com seus aspectos psíquicos e espirituais. A psiquê, ou os aspectos psíquicos, está ligado ao corpo e por ela nós podemos comandá-lo. Por exemplo, se estamos sentindo calor, a psiquê pode decidir, pelo intelecto, a usar um ar condicionado. Mas a alma possui uma outra parte, a espiritual, além da psíquica. É lá que a graça de Deus atua, religiosamente falando.
- A alma possui, portanto, aspectos diversos, entre eles está esta parte espiritual, este lugar simples, individual e aberto, que tende para o além, para o outro, para o Outro, que os religiosos chamam de Deus.
- Edith, em sua reflexão filosófica, se interessa por esta abertura que existe no ser humano. Abertura relacional para o Outro.

--------Mas que abertura é esta ?
--------Edith Stein vê o ser humano num pano de fundo mais amplo e complexo. Para ela o ser humano é um microcosmo e, por ser um microcosmo, ele pertence a dois reinos. Como corpo pertence ao reino da natureza, e pela psiquê, pertence ao reino do espírito e o espírito é algo de novo em relação à natureza do corpo, pois pelo espírito podemos pôr na natureza algo de Bem ou de Mal. Os animais não podem ter esta dimensão. O homem pode. O ser humano pode ser perverso, ao passo que o animal é somente selvagem. Segue a sua natureza. Mesmo que esta nos pareça maldosa. Só o ser humano pode colocar bondade ou maldade em seus atos. Ainda mais, os animais não são capazes de pensar sua existência, mesmo que estejam em extinção. Esta responsabilidade é do ser humano que participa das propriedades do espírito, pois é o ser humano quem dá nomes aos animais.

--------O ser humano tende e quer ser livre. O grande impulso e ao mesmo tempo o grande temor do ser humano é a sua libertação. Uma libertação que não elimine a participação do corpo e da psiquê, pois são elementos que podem também ser transformados e potencializados pelo espírito,embora em nossa tradição o corpo e a psiquê tenham sido eliminados. O processo de libertação não está na eliminação destes elementos, mas no reencontro do equilíbrio entre eles. Mas esta capacidade que o ser humano possui não é absoluta. Ela está ligada à realidade física e, por fim, à realidade espiritual. O ser humano é diferente deste dois reinos a que pertence, pois ele é um microcosmo e pertence aos dois reinos. Agora, o ser humano pode decidir também participar só do reino da natureza ou só do reino do espírito. Assim, há seres humanos que servem o reino da natureza, vivendo como animais. Contudo, viver como animal é da natureza do animal, mas não é da natureza do homem.

--------Posso encontrar uma pessoa que mantendo aversão a mim, não me cumprimenta, não havendo motivo para tal aversão. É que ela está, neste momento, seguindo sua tendência instintiva e não consegue superá-la, se superamos esta tendência entramos nos dimensão espiritual. A vida moral não é algo que se acrescenta ao ser humano, mas algo que o acompanha. O espírito pode pertencer aos dois reinos, o positivo e o negativo conforme toma posição, está a diferença entre o Bem o Mal. Pertencer ou não ao reino negativo. E pertencer ao reino negativo é um mal. Existe uma força que acompanha os dois reinos. Se ele aceita submeter-se livremente ao reino do Bem, ele entra no reino religioso. O ingresso neste reino depende da pessoa. É livre opção dele. Não há passividade na entrada. Quem entra em qualquer um dos reinos, entra porque quer. Quem entra no reino do mal, entra também para o seu reinado, como também quem entra para o reino do Bem, entra para seu reinado. Para o ser humano há duas possibilidades que o atraem, não são possibilidades externas, são possibilidades internas. São tensões em atração para o bem e para o mal, são forças partindo do espírito. A vida espiritual deve decidir. O ser humano conhece o pecado, o mal e o bem. Estas duas forças trabalham no interior do homem. Heidegger, seu colega de Filosofia, constata em suas investigações filosóficas, a angústia do ser humano. Ele só constata a angústia mas não sabe o porquê. Stein diz que o ser humano tem angústia porque sabe o que é o mal, sabe que pode também tomar este caminho. É a angústia filosófica a que muitos filósofos chegaram igualmente. A angústia vem da possibilidade do ser humano entrar ou não no reinado do Mal. Heidegger não chega a perceber a causa desta angústia: Essa possibilidade que o ser humano tem de entrar no reino do Mal. O ser humano, ao agir, pode errar ou acertar, dependendo sempre de uma decisão. Aqui existe o drama do ser Humano: Ser ou não ser. Edith Stein diz que é possível superar esta angústia e isto somente é possível quando se escolhe o reino do Bem. E se confia a alguém que possa ajudar a entrar no reinado de Bem. Este alguém é Deus. AQUELE QUE AJUDA, é a ajuda de que o ser humano precisa. Só Deus , o Outro Maior que o ser humano, pode ajudar o homem a vencer seu drama e entrar no reino do espírito, e não resvalar no caminho do Mal, a que está constantemente sujeito a cair.

--------Mas surge um questionamento:
--------Será que o ser humano pode entrar sozinho no reinado do Bem? Muitas pessoas pensam e querem fazer o bem, sem precisar da dimensão religiosa. Mas, quem quer ir sozinho, entra mais cedo ou mais tarde na solidão. Ele pode ir sozinho, mas se obscurece.

--------O ser humano não se mantém até o fim no reinado do Bem se não tiver uma força espiritual. Há uma força espiritual que nos orienta para o bem como temos uma força espiritual que nos orienta para o mal. O difícil é fazer sempre o bem. É preciso uma ajuda e esta ajuda deve vir de uma força superior como expressa bem belamente o salmo121.

--------Levanto os olhos para o monte: de onde me virá o auxílio? O auxilio me vem do Senhor, que fez o céu e a terra. O teu guardião não dorme. Não dorme nem cochila o guardião de Israel O Senhor é teu guardião, o Senhor é tua sombra, Ele está à tua direita De dia o sol não te fará mal, nem a lua de noite. O Senhor te guarda de todo mal, ele guarda a tua vida. O Senhor guarda tuas entradas e tuas saídas, agora e para sempre. Neste momento de decisão é que surge a graça, algo dado gratuitamente. Alguma ajuda extraordinária em relação ao espírito, se o espírito estiver disposto a recebê-la. Todos têm possibilidade de ter esta ajuda da qual ele é sedento. É a graça.

--------Mas e a esperança ?
--------A esperança também não é algo físico, é força do espírito, é força para fazer acontecer algo que se deseja e se busca. A santidade é a aceitação da ajuda da graça e, ao mesmo tempo, das suas conseqüências na vida de quem se abre para ela e a acolhe.

--------A dimensão do espirito
--------O espírito tem necessidade tanto do corpo como da psiquê. Stein disse: não são somente os consagrados, mas também todas as pessoas, que aceitam o reinado do bem, e fazem boas obras, têm necessidade desta ajuda. A santidade está na escolha do Bem e nos frutos que a pessoa produz. Santidade não é algo que se acrescenta depois da morte. Quem não é santo na vida não o será na morte. Quem é santo? Santo é quem escolhe o bem e entrou no reinado do Bem. Santidade não é ascese quando entendida como mortificação do corpo. Santidade não é maceração do corpo. A ascese deve ser vista como necessária, para manter o equilíbrio entre a matéria e a psiquê, pois o espírito deve equilibrar estas duas partes, já que delas precisa.
Como então se macera o corpo, chamando isto de santidade? Isto acontece por falta de equilíbrio. É por que se dá muita atenção só ao corpo. O mesmo acontece na busca da beleza. De tal modo se preocupa e se prioriza o corpo que vem a patologia: à anorexia. Canaliza-se muita atenção ao corpo, perdendo-se o equilíbrio.

--------A santidade não passa pela eliminação do corpo nem das necessidades psíquicas. Para cada ser humano o importante é que o espírito tenha e mantenha o equilíbrio. A graça, a ajuda de Algo Superior, pode ajudar o espírito, mas ajuda também o corpo. Há santos que podem curar só por tocar os outros. Se o santo alcança o equilíbrio entre espírito e corpo, ele pode fazer o bem ao corpo físico seu e dos outros. É o que chamam de milagre.

--------O que acontece com o médico ? Ele, pela sua arte da medicina, usa do remédio no plano físico natural para curar o doente. Semelhante processo acontece com os santos. Ele, com seu equilíbrio, faz seu corpo participar das prerrogativas do espírito e cura. A experiência o atesta. A cura para os santos é seu equilíbrio entre espírito e corpo.

--------Cristo é espírito, é santo, mas é também humano no seu corpo, e seu corpo é transformado e, por ser corpo transformado, libertou a humanidade em sua totalidade.

--------Passemos a entender melhor a libertação.
--------Usando o caso de um juiz que julga o réu, ele vê a culpa, o erro, e em vez de condenar a este, ele pode julgar que este outro possa pagar a pena. Exemplo. Os filhos menores cometem faltas e os pais pagam por eles. Deus, que é todos poderoso, pode usar do meio da substituição. Deus pode escolher outra pena para o ser humano pecador. Ele escolheu que seu filho Jesus assumisse a pena e pagasse a dívida pela humanidade. Por isso é chamado de Redentor porque nos redimiu da pena. Para o ser humano existe sempre a possibilidade de querer que exista um outro todo poderoso e potente que o ajude, e salve sua alma. É a possibilidade de crer como criança, que acredita numa força superior que possa sempre ajudá-la e salvá-la do perigo. Está na natureza humana o ato de crer e confiar numa força superior. Este é um ato bioético. Este ato parte da própria limitação do ser humano. Crer que possa ser ajudado por um outro. Nosso pensamento nos faz saber que pode existir algo que não é limitado, que pode ajudar nas nossas limitações. Isto não é ato de fé, é ainda ato racional.

--------Pergunta-se o que é Religião e o que é Filosofia?
--------Durante muito tempo se excluiu o religioso da investigação filosófica, isto por causa do pensamento positivista, mas já que o homem tem também a dimensão religiosa, esta dimensão pode ser analisada filosoficamente como o é a dimensão social, política etc.É o que Edth Stein faz.

--------Como podemos trabalhar a corporeidade e a encarnação ?
--------O ser humano tem a dimensão do espírito, mas porque ele também é corpo, precisa haver a encarnação da palavra no corpo. A abertura do ser humano é para o outro e o ser humano é corpo, psiquê e espírito. A encarnação deve acontecer nos três níveis. O que vivencio no espírito devo também sentir no nível psíquico e experimentar no nível do corpo. Por isso o outro, Deus, para os cristãos, não só se encarnou, tomou um corpo, mas se materializou também nos sacramentos, especialmente no sacramento da Eucaristia. Agora, o Outro em quem creio, eu o sinto, eu o experimento. Ele se tornou acessível ao espírito pela fé e é palpável no nível corporal. A Eucaristia é nutrição para o corpo e para o espírito, pois o espírito potencializa também o corpo. É o que a Eucaristia realiza em nós: Corpo transformado pelo espírito de Cristo. Esta é a estrutura ontológica do ser.

--------Ser corpo. Ser psiquê. Ser Espírito. Negar estas dimensões é negar parte do homem na visão filosófica cristã de Edith Stein. Na salvação do ser humano deveria também haver restauração do corpo: a ressurreição da carne. E foi o que Jesus Cristo realizou em nosso favor.

Anotações pessoais
Frei Felisberto Caldeira















 
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