VI FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

Um mundo democrático-participativo e socialista em construção

Frei Gilvander Luís Moreira[1] e Delze dos Santos Laureano[2]

Em memória de Pedro, Roberto Tadeu, Taís e Thiers e aos demais estudantes da UFMG que tiveram interrompido o sonho de participar do 6o FSM devido ao acidente no dia 23/01/2006 em Ariquepa no Peru.

1 – Introdução

Partilhar uma experiência vivida é sempre um grande desafio. Nenhum de nós, participantes do VI Fórum Social Mundial será capaz de relatar na integralidade todos os temas discutidos. Nem mesmo fazer uma análise absolutamente isenta dos acontecimentos. O tamanho do evento e a multiplicidade de oficinas já são as primeiras dificuldades. Some-se que qualquer ponto de vista é sempre um recorte. O nosso olhar, marcado pelo aprendizado na história, bem como o lugar social e político, acompanha cada um/a de nós, sujeitos protagonistas. Essa limitação, porém, não pode inviabilizar o desejo de multiplicar a experiência vivida e de somar mais essa contribuição - a da efetiva participação no evento -, aos diversos esforços dos movimentos sociais, para entendermos, na atualidade, a crise que vivemos e os obstáculos que teremos de transpor, de mãos dadas, com tantos outros atores espalhados pelo mundo inteiro.

Poderíamos utilizar a metáfora de ser o Fórum Social uma casa com grandes portas e diversas janelas. Durante o encontro entramos por algumas portas e olhamos a partir de determinadas janelas. O conhecimento de literaturas afins e a participação em outros eventos similares vão formando a nossa capacidade de compreender a realidade político-social-econômico-cultural que nos cerca, para em sintonia com diversas outras iniciativas podermos juntos apostar em um Outro Mundo Possível, socialista, é claro!

2 – A Venezuela como sede do evento

Caracas, capital da Venezuela, foi o palco da 6a edição do Fórum Social Mundial – VI FSM – de 24 a 29 de janeiro de 2006, que contou com a participação de mais de 80 mil inscritos em mais de 2 mil atividades, geridas por 2.500 organizações, 3.000 voluntários e 4.900 jornalistas. A delegação brasileira realizou 450 atividades.

Desta vez, o Fórum foi policêntrico, isto é, aconteceu no continente Americano, em Caracas; na África, em Bamako (Dali, na África); e na Ásia, em Karachi (Paquistão) e em Bancoc, na Tailândia. Antes do VI FSM aconteceram, em Caracas, os Fóruns Mundiais da Educação, da Saúde e das Autoridades.

A Venezuela tem nos dias atuais uma população de 26 milhões de habitantes. Na Grande Caracas estão cerca de 5 milhões. Grande parte da cidade está situada em um vale rodeado de montanhas. O clima é ótimo com uma temperatura amena e sem ventos fortes. A chuva fina marcou presença durante todo o encontro. Caracas está cercada de milhões de favelados dependurados nos morros o que contrasta com as áreas elegantes da cidade, onde algumas construções modernas e uma maioria de prédios que lembram o apogeu da arquitetura na década de 50 no Brasil. Do centro da cidade até o Aeroporto Internacional de Maiquetia “Simão Bolivar”, nós visitantes tivemos de serpentear por uma estrada estreita cercada de barracos de ambos os lados nas encostas montanhosas. As áreas de riscos lembram a tragédia de 1.999 quando aproximadamente 20 mil venezuelanos morreram vítimas de um enorme deslocamento de terra no estado de Vargas.

Do Brasil éramos mais de 6 mil lutadores/as: delegados de dezenas de entidades, participantes, jovens, adultos, gente da melhor idade, intelectuais, líderes comunitários, artistas, enfim, um pouquinho de Brasil em cada metro quadrado do Fórum.

Dos Estados Unidos vieram mais de 1.000 socialistas, anti-Bush. Sinal de que não devemos ser impiedosos com grande parte do povo norte americano e sim com o governo.

O governo bolivariano liderado pelo presidente Hugo Chávez deu apoio irrestrito ao evento. Podemos citar a liberação do Metrô para os participantes, que circularam de graça com muito conforto, a isenção da taxa aeroportuária e o lanche gentilmente servido pelos voluntários a cada tarde nos locais de maior concentração.

3 – A Revolução Bolivariana na Venezuela: um povo que está se libertando

Além de participar de muitas conferências, seminários, oficinas e debates, conhecemos aspectos da realidade venezuelana que nos marcaram indelevelmente. São dezenas de iniciativas da revolução bolivariana que visam a inclusão social.

Um grande mutirão pela educação acabou com o analfabetismo no país. O povo controla e comercializa o petróleo, grande riqueza natural da Venezuela, que agora serve para melhorar a vida das pessoas e não mais aumentar o lucro das multinacionais. Acima de tudo, encontramos um povo cheio de esperança, uma juventude em sua maioria esclarecida e comprometida com a organização popular, com a construção de uma democracia verdadeiramente participativa.

Na Venezuela, o povo está cheio de esperança. Só ouvimos críticas a Hugo Chávez por parte dos canais de TV que estão nas mãos das elites e por uma minoria privilegiada que sempre olhou para o próprio umbigo. Internamente, entre os pobres e marginalizados pelo regime anterior não vimos nenhuma crítica ao processo implementado por Hugo Chávez.

Quatorze mil Mercados Populares - MERCAL - alimentam cerca de 14 milhões - dos 26 milhões - de venezuelanos, onde os preços são de 30 a 50% mais baixos do que nos mercados privados. Visitamos um desses mercados. Cada pessoa pode comprar somente o que consome sua família. É proibida a compra em grande quantidade, o que poderia viabilizar a revenda.

Eis uma amostra de preços:

Nos Mercados populares ------ Nos mercados privados
1 kg de feijão R$1,00 (= 1.000 bolivares), ----- R$5,00.

Milho: R$0,79 ----- R$1,25

Óleo: R$2,30 ----- R$3,25

Leite: R$4,70 ----- R$8,90

Macarrão: R$1,20 ----- R$3,40

A gasolina é quase de graça. Custa 0,07 centavos o litro. Com R$ 4,20 se enche o tanque do automóvel. Tudo isso com o assentimento dos defensores da Constituição da República Bolivariana da Venezuela que prescreve ao Estado o dever de regular as relações comerciais no país.

Na Venezuela bolivariana, todos os estudantes que cursam universidades públicas ou que ganham bolsas de estudos devem prestar serviço social à comunidade. Deve haver uma contrapartida para a sociedade de quem usufrui o dinheiro do povo, via impostos, para estudar. Estão sendo investidos na educação 7,5% do PIB – Produto Interno Bruto.

O governo de Hugo Chávez está apoiando a instalação, regulamentação e funcionamento de rádios comunitárias. Não há burocracia para conseguir a documentação e o governo ajuda financeiramente na compra dos equipamentos para se fortalecer a comunicação alternativa e mais interativa.

Enfim, percebemos que, na Venezuela, a democracia participativa está irrompendo como um vulcão. Essa, a principal garantia da revolução em qualquer parte do mundo. Se a nossa percepção está correta, caberá à História confirmar ou desmentir. O que trouxemos em nossa bagagem de volta foi a certeza de dias melhores para todos e a luta pela afirmação de um povo soberano e solidário com toda a América Latina. A Venezuela está se tornando um país de todos.

4 - Hugo Chávez no FSM

Os intelectuais venezuelanos estão convictos de que uma revolução não se sustenta no carisma de uma só pessoa. O fato de o presidente Hugo Chávez ter formação militar também pode ser um complicador para a implementação de um regime democrático em qualquer lugar do mundo. No entanto, mesmo conscientes dessas dificuldades, reconhecem os cientistas políticos a grande liderança do presidente e a importância de sua atuação como líder carismático e como militar na liderança do processo revolucionário que está caminhando a passos largos na Venezuela. Essas observações foram por nós confirmadas no dia 27/01/2006, das 19:00 às 22:30 hs, quando o presidente Hugo Chávez, no estádio Poliedro, falou por mais de três horas para os participantes do VI FSM.

Saímos do encontro convictos de que ele é realmente uma pessoa extraordinária, sorridente, carismático, culto, estrategista e além de falar bem ainda canta com uma voz afinada. Até o momento, o que vimos e ouvimos confirmam a impressão que tivemos do grande “comandante”. Chávez, em seu discurso, resgatou a memória histórica revolucionária de Bolívar e de todos os/as revoluncionários/as da história, passando por Jesus Cristo. O discurso dele é uma verdadeira aula de história a partir dos pobres que lutam contra os sistemas opressivos. Analisa o presente com olhar crítico e injeta esperança nas pessoas, pois cultiva a utopia: a construção de uma sociedade socialista, democrática, popular na América Afrolatíndia.

Os presidentes Hugo Chávez e Evo Morales, esse em seu primeiro dia de governo na Bolívia, firmaram oito convênios que visam a integração entre os dois paises. O governo venezuelano venderá petróleo, a baixo preço, para a Bolívia e ajudará a superar o analfabetismo, como já fez na Venezuela. Ofereceu 5 mil bolsas de estudos para jovens bolivianos cursarem universidade na Venezuela. Cuba também ofereceu outras 5 mil bolsas.

Hugo Chávez, ao tempo em que estrutura internamente o país, demarca sem rodeios sua política externa. Anunciou com intrepidez: “Mr. Danger (O Perigoso) chefia o império mais cínico, mas hipócrita e mais assassino de toda a história da humanidade. Por mais poderoso que seja o império de Mr. Danger não vai conseguir nos vencer. Já detectamos espionagem dos EUA na Venezuela. Advirto ao governo dos EUA: a próxima vez que encontrarmos espiões na Venezuela, vamos mandá-los para o cárcere.”

Acerca da importância da união dos povos latino-americanos, afirmou Hugo Chávez: “não dá para exigir que Lula seja igual a Chávez, ou que Kirtchner seja igual Evo Morales ou Fidel. Estamos juntos, marchando na mesma direção. A união dos povos latino-americanos é fundamental para derrotarmos o imperialismo estadunidense e o neoliberalismo. A ALCA já foi enterrada. Bush não conseguiu aprová-la como queria”, arrematou Chávez.

5 - Colômbia: um povo agredido pelo império
Uma delegação de 15 mil colombianos deixou os participantes comovidos e indignados com a covarde agressão militar que os Estados Unidos estão orquestrando na Colômbia. O presidente Álvaro Uribe, “pau mandado” do Mr. Danger dos EUA, está promovendo, mediante o chamado Plano Colômbia, não uma guerra contra o narcotráfico, mas uma guerra contra o povo. Milícias paramilitares estão expulsando os camponeses de suas terras, só com a roupa do corpo.

O governo da Colômbia é fascista e representante de uma oligarquia violenta. São 37 mil mortos por ano na guerra interna na Colômbia, sob o fomento dos EUA. Filhos de parlamentares colombianos são embaixadores em 32 embaixadas. A Lei de Justiça e Paz, na Colômbia, ao atribuir uma pena máxima para um narcotraficante é 8 anos, legitima o narcotráfico. Os narcotraficantes controlam 35% do Congresso daquele país. O Plano Colômbia recebe muito dinheiro dos EUA. Hoje existem mais de 800 militares ianques na Colômbia. 66% dos colombianos estão abaixo da linha de pobreza. Na Colômbia, 20% da população tem 80% da terra, enquanto 50% tem somente 15% da terra. Além de 6 milhões de indigentes, 14 mil empresas médias e pequenas estão falidas após 14 anos de neoliberalismo. 19% do orçamento do estado vai para a guerra. 39% para o pagamento dos juros da dívida e(x)terna que já chega a 75 bilhões de dólares. A Colômbia, hoje, é a ponta de lança do imperialismo de Bush para dominar toda a América Afrolatíndia.

Fatos como esses, promovidos por um regime desumano, causam enormes prejuízos não apenas para o povo colombiano, que se vê cada vez mais distante de uma saída para a reorganização do tecido social no país, mas também para toda a América Latina, vítima dessa mesma política fundamentalista imposta pelo império do norte. Todos têm consciência que a guerra na Colômbia só terminará com a realização da reforma agrária.

6 - Cuba: povo solidário e grande de coração

Na Venezuela, atualmente, existem cerca de 20 mil médicos cubanos alavacando uma revolução no sistema público de saúde. São responsáveis pelo atendimento primário da população, algo parecido com o médico de família. Estão nas favelas e bairros pobres; lá vivem e atendem com competência e dedicação os pobres. Fomos ao encontro de alguns deles. Em conversa com duas médicas e um médico, ouvimos, entre tantas coisas, o seguinte: “Não viemos aqui para ganhar dinheiro, mas por amor ao próximo. Estudamos medicina para cuidar das pessoas, nunca para ganhar dinheiro. Quando terminamos o curso de medicina em Cuba, fazemos um juramento de cuidar sempre da vida ameaçada em Cuba e em qualquer país do mundo. Quando se é de esquerda, socialista, somos mais cristãos, pensamos mais no próximo. Todo o povo do mundo é meu próximo, é minha família. Somos e devemos nos comportar todos como irmãos. Vivo para servir a sociedade. Em Venezuela, recebemos apenas uma ajuda de custo para pagar metrô, ônibus coletivo e comprar alimentos e alguma coisa mais necessária.” O estipêndio recebido pelos médicos cubanos não chega a um salário mínimo da Venezuela, que é cerca de R$405,00.

Outra médica cubana nos alertava: “Em Cuba as famílias têm, no máximo, dois filhos. As pessoas não devem ter muitos filhos, pois cresce demais a população e há ocupação humana em todas as áreas, o que compromete o meio ambiente. As florestas são dos animais e dos indígenas. Não podemos acabar com elas. Além do mais, nas famílias com muitos filhos a mulher é a mais prejudicada. Em Cuba não existem analfabetos. Todos estudam, no mínimo, 12 anos. Somos livres e soberanos. Somos autônomos para tomar as decisões importantes em nossas vida.” Como reflexão para a ética médica, ouvimos: “Os médicos pesquisadores cubanos testam os novos remédios em si mesmos. ”

Outro cubano, ao responder à pergunta: “E Cuba após Fidel?” disse: “Essa é a pergunta que nos fazem tanto os amigos quanto os inimigos. Se querem saber, gostaríamos que Fidel não morresse nunca. Mas sabemos que um dia ele morrerá, porque todos morrem. Fidel Castro deixará de existir fisicamente, mas suas idéias, sonhos, utopia e o projeto socialista continuarão sempre vivos. Em Cuba há três gerações revolucionárias, os contemporâneos de Fidel, uma geração mediana e os jovens. Em todas os níveis de organização da revolução cubana há representantes das três gerações. Quando Fidel morrer, ele estará mais vivo do que nunca nos corações dos 11 milhões de cubanos e em tantos pelo mundo afora. Em Cuba há muitos líderes capazes de continuar o trabalho de Fidel.”

Todos os cubanos que encontramos exprimem uma enorme paixão pelo socialismo cubano e uma indignação muito grande contra o império de Jorge Bush. “Em nome da liberdade (deles) tentam impor um modelo hegemônico para todo o mundo. Por ameaça dos EUA a União Européia tem condicionado as parcerias à Cuba ao fim do Regime Socialista. Isso é um absurdo pois a mudança de regime político não tem sido uma condicionante para o fechamento de acordos com outros países, inclusive aqueles que desrespeitam os direitos humanos, como o próprio Estados Unidos. Se os Estados Unidos voltarem a invadir Cuba, serão desmoralizados internacionalmente, pois resistiremos até a morte. Terão de assumir as conseqüências. Jamais ajoelharemos aos pés do mais bárbaro dos impérios de toda a história”, adverte um cubano. Encanta sentir a humanidade que palpita no povo cubano. É uma injustiça grave criticar Cuba sem ter conversado demoradamente com vários cubanos. Quem conhece aquele povo apaixonado pela vida e educado nos moldes socialistas, defende Cuba. Lá o ser humano é realmente humano e não mero consumidor capitalista, população de egocêntricos.

Desde 1959, ano do triunfo da Revolução cubana, os Estados Unidos implantaram um bloqueio econômico a Cuba. Isto é discriminação. Após 1989, com a queda do Muro de Berlin, Cuba passou a sofrer um duplo bloqueio. A União Européia tem condicionado firmar acordos com Cuba mediante a mudança do regime político-econômico. Isto é inaceitável. Contraditoriamente, a União Econômica Européia estabelece relações comerciais com países ditatoriais que não respeitam os direitos humanos. Diante dessa constatação é que o cidadão cubano reflete: “Por que tanta opressão contra um país tão pequeno, uma ilha? Estamos constantemente sendo ameaçados pelos Estados Unidos, onde tem pena de morte, com freqüência e inclusive para crianças. As relações econômicas da União Européia com Cuba seguem os ditames do império estadunidense.”

7 - Pela Retirada das tropas do Haiti

Dia 27/01/06, houve uma manifestação em frente à Embaixada do Brasil na Venezuela para exigir a retirada das tropas de intervenção do Haiti. Brasileiros, canadenses e haitianos estão juntos nesta luta. O exército brasileiro não pode ser terceirizado por Jorge Bush para fazer sua política suja. O grande responsável pela opressão e miséria no Haiti é o imperialismo estadunidense. Não é com força militar que se caminha rumo à reconstrução do Estado haitiano, primeiro Estado negro a se tornar independente na América Latina e que, talvez, por isso mesmo, nunca tenha sido perdoado pelo poderio capitalista por tamanha ousadia. Essas as conclusões dos manifestantes pró Haiti no Fórum.


8 - União dos povos europeus e latino-americanos

Está crescendo a união européia e latino-americana na luta contra o imperialismo dos EUA. Em 1976 iniciaram-se as primeiras cooperações entre europeus e latino-americanos a partir de redes de solidariedade internacional. Em 1991 foi criado o Mercosul. A União Européia tem milhões de investimentos em cooperação com a América Latina, mas é uma cooperação ambígua. Há o programa Euro Social. Falta maior participação da sociedade civil e das ONGs nos projetos de cooperação entre União Européia e América Latina.

Diante de realidades como a da Colômbia, já tratada acima, propomos que as organizações de solidariedade internacional ajudem na “Campanha Nenhum Centavo para os regimes autoritários” como o que dá sustentação ao Plano Colômbia. Que os recursos da comunidade internacional sejam investidos em programas sociais. Os povos pobres do mundo inteiro devem estar atentos também para que os recursos aplicados não sejam apenas uma estratégia imperialista para camuflar as mazelas sociais causadas pela exploração capitalista.

9 - Solidariedade que vem do Reino Unido

Diversas organizações de solidariedade internacional do Reino Unido estão comprometidas com uma campanha de solidariedade a Cuba. Um documento de repúdio ao embargo econômico de Cuba pelos EUA foi assinado por 300 deputados da Inglaterra. Estão lutando também pelo respeito à soberania do povo venezuelano. No projeto de cidades irmãs, 25 cidades da Inglaterra são cidades irmãs de 25 cidades da Nicarágua. Em 2006, a prioridade maior será o apoio ao povo venezuelano, pois o imperialismo de Bush vai “jogar pesado” para impedir a re-eleição de Hugo Chávez.

10 - Solidariedade que vem da França

A solidariedade do povo francês aos povos latino-americanos vem desde Alliende, há 36 anos. Para o povo francês, 2006 será o ano do apoio ao povo colombiano, tão sofrido pela agressão militar dos Estados Unidos em parceria com o governo de Álvaro Uribe. Os descendentes dos franceses que vivem no Quebec – um dos principais estados do Canadá -, muito bem representados no Fórum, com uma delegação de mais de 100 integrantes, também demonstraram disposição para lutar pela identidade e contra a pasteurização cultural imposta pelo capitalismo. Reafirmam o desejo de se tornarem independentes e o respeito às diferenças.

11 - Trabalho escravo, uma chaga aberta

Participamos de um seminário sobre Trabalho Escravo, promovido pela Comissão Pastoral da Terra - CPT. Eis a triste constatação: o pouco que sabemos é a partir das vítimas. Estima-se a existência de 12.300.000 pessoas trabalhando em situações análogas à de escravidão em todo o mundo. Há 12 mil bolivianos sobrevivendo em situação de “escravidão” no Brasil. Trabalham nas confecções em São Paulo. A CPT estima a existência de cerca de 25 mil trabalhadores sobrevivendo em situação análoga à de escravidão no Brasil. São os trabalhadores das carvoarias, da monocultura da cana-de-açúcar, do desmatamento da floresta amazônica e principalmente na pecuária, onde foram registrados o maior número de ocorrências.

Os escravos da era moderna não dependem da etnia nem da idade ou gênero. São negros, indígenas, mulheres, jovens, idosos. Já se passaram 118 anos após a libertação formal dos escravos, mas a mesma vergonha marca a história do crescimento econômico do país. Os estados maiores exportadores de mão-de-obra são o Piauí e o Maranhão. O intermediário entre os novos senhores de engenho e as senzalas de hoje continua sendo o “gato”. Na hora de conquistar mão-de-obra para o corte de cana, promete um paraíso, mas o que depois os trabalhadores experimentam é um inferno. Só na região de Jaboticabal, em 2005, morreram 12 trabalhadores no corte da cana. Muitos, após amargar a escravidão, desabafam: “Pior que não conseguir trabalho é não conseguir sair dele.”

Nas novas senzalas, os trabalhadores são vítimas de promessas enganosas; estão em alojamentos precários sem nenhuma higiene. São submetidos a uma jornada exaustiva. Devem cortar 10 toneladas de cana por dia. São os conhecidos bóias-frias. A água que consomem é a mesma água suja dada aos animais. Sem instrumentos de proteção, sem assistência médica e sem receber salário, vivem em sobressalto, ameaçados por uma dívida crescente apesar das longas jornadas diárias de trabalho. Muitos fogem para não morrer antes do tempo.

A Polícia Federal, por meio do Grupo Móvel anti-trabalho escravo, já resgatou milhares de trabalhadores submetidos à escravidão nos últimos anos. Resgatar escravos é importante, mais só isso não basta. É preciso desmantelar a estrutura que viabiliza o trabalho escravo. As maiores causas são a impunidade, a miséria e o analfabetismo, todas essas causas filhas do capitalismo que trata o ser humano como mercadoria e quando não lhe convém, descarta.[3]

Olhando de cima, a monocultura da cana produz açúcar e álcool (energia limpa) e é muito atraente, mas olhando a partir dos trabalhadores escravizados é tremendamente devastadora da pessoa humana e do meio ambiente. O açúcar produzido nas usinas da monocultura da cana tem o gosto amargo das vidas perdidas, tem sabor de sangue.

A solução para o trabalho escravo no Brasil (e no mundo) passa necessariamente pela realização de uma reforma agrária integral. Em 2005, a monocultura da cana-de-açúcar cresceu 27% no Brasil, que é o campeão na produção mundial de açúcar. Produz 1/3 de todo o açúcar consumido no mundo. Nos últimos 20 anos, 150 mil postos de trabalho desapareceram com a mecanização do corte da cana. A escravidão é um crime contra a humanidade.

12 - Reforma Agrária integral

De 7 a 10 de março de 2006 acontecerá, em Porto Alegre, a II Conferência da FAO – ONU - sobre Reforma Agrária. Será lançada a “Campanha Global pela Reforma Agrária Integral”, isto é, uma reforma que mude a estrutura fundiária, desconcentrando-a, que seja feita de forma rápida e massiva, que respeite o meio ambiente, a vida das comunidades tradicionais e que tenha os camponeses como protagonistas.

No FSM, quem estava com um boné ou uma camiseta do MST era logo cumprimentado e elogiado. Foi animador observar como tanta gente pelo mundo afora conhece, respeita e admira o MST[4] e quer ser solidário com uma luta que conquistou o respeito pela seriedade e compromisso. Aumenta o nosso compromisso com esse movimento social que há tanto luta pela Reforma Agrária integral, nos moldes propostos pela Constituição de 1988, interpretada a partir dos princípios fundamentais.

13 - LINUX - o Softwear livre

Em Caracas, muitas vozes se levantaram em defesa do Softwear livre, o LINUX. Ficamos sabendo que até a Microsoft, a NASA e o governo dos EUA estão usando esse modelo de softwear. Em Uberlândia, sob iniciativa de um vereador, foi aprovada e sancionada uma lei que obriga a prefeitura a usá-lo. Só na instalação houve uma economia de 50 mil dólares. Devemos lutar pela aprovação de lei como esta em todos os municípios, órgãos governamentais, ONGs, entidades e igrejas. É uma forma de caminhar a passos largos na inclusão digital.

14 - Solidariedade aos 4 estudantes da UFMG

Em Caracas, no VI FSM, o sentimento que tivemos, após tomarmos conhecimento do acidente com o ônibus dos estudantes da UFMG que iriam participar do Fórum, foi o da permanente ausência física dos jovens companheiros, no entanto, sentimos a presença viva e marcante deles no nosso meio, nos mesmos sonhos. Assumimos, assim, o compromisso de redobrar os esforços na luta, porque eles continuam vivendo de forma plena, e também em nós. Somaram suas vidas a de tantos mártires pela liberdade. O sangue deles corre, agora, em nossas veias.

Aos parentes e amigos lembramos que se a morte é algo irreparável, há de se entender e dar continuidade ao sonho de quem partiu desta vida lutando por um mundo melhor. Quando sentirmos saudade deles, lembremo-nos da miséria dos milhões de crianças, velhos, dos jovens sem perspectiva de trabalho, doentes e analfabetos explorados pelo sistema capitalista. Por todos estes lutavam nossos queridos jovens.

“Não podemos esperar mais!”, afirmou Hugo Chávez, ao falar para os milhares de participantes do VI Fórum Social Mundial em assembléia no estádio Poliedro. Se passarmos os olhos por toda a América Latina, veremos que o nível de exploração capitalista e o avanço do neoliberalismo chegaram no limite.

Aumenta a nossa indignação saber que milhares de camponeses colombianos são expulsos de suas terras diariamente pelas milícias paramilitares. Milhares são assassinados, vítimas de um regime neofascista. Contra esses o império estadunidense não impõe o respeito aos direitos humanos.

O compromisso de solidariedade que assumimos não se restringe às famílias que perderam os seus entes queridos, mas também aos demais integrantes da comitiva da UFMG que passaram por horas intermináveis de angústia e dor em um país estrangeiro. Tudo isso obriga-nos a assumir a luta dos milhões de trabalhadores sem terra em todo o continente, a luta contra a perpetuação do latifúndio no Brasil, pelo fim do trabalho escravo nas plantações de cana de açúcar, nas carvoarias, pelo fim do desmatamento da Amazônia. O compromisso com tantas crianças que perdem a vida tão prococemente nas favelas, no trabalho degradante antes do tempo. A luta incansável contra a concentração de riquezas e a opção pelo agronegócio em detrimento da agricultura familiar. Contra o modelo de desenvolvimento capitalista falido no mundo inteiro causador de outras tantas gerações de desnutridos e analfabetos. Pelo fim da mercantilizaçao da educação ou da manutenção de um péssimo ensino público, acrítico, que nega o direito à aquisição do conhecimento tão necessário a uma vida digna e cidadã. Universalizam-se diplomas e não conhecimento.

Sejamos solidários com o povo boliviano, tão expropriado, mas que, agora, se levanta com a eleição do primeiro presidente indígena para poder usufruir as enormes reservas de riquezas naturais e caminhar de forma soberana.

Nenhuma vida se perde em vão! O sonho de Pedro, Roberto Tadeu, Taís e Thiers é o que respiramos em Caracas, no VI FSM. Muitas iniciativas concretas de libertação estão em curso em toda a América Afrolatíndia. A eleição de Evo Morales como presidente da Bolívia nos enche de esperança. De fato, um outro mundo possível está sendo construído.

Como uma estrela, Cuba ensina como viver uma vida de amor ao próximo, de solidariedade sem fronteiras e de desprendimento. São 20 mil médicos cubanos alavancando uma revolução no sistema de saúde na Venezuela. O povo cubano continua aguerridamente resistindo ao bloqueio e ao modelo hegemônico do império norte americano.

O povo venezuelano, sob a liderança do presidente Hugo Chávez, está empreendendo um processo de libertação muito promissor.

Aos lutadores que doaram a vida e aos que tiveram interrompido o sonho de participar do Fórum propomos que, mesmo com o sentimento de perda, ao invés do vazio da saudade, agradeçamos a Deus por termos no Brasil tantos jovens que acreditam e lutam por um “Outro Mundo Possível”, socialista, democrático-participativo e solidário! Que a luz, a vida e a grandeza de Deus, existentes em nós, brilhem sempre na lembrança de Pedro, Roberto Tadeu, Taís e Thiers. Que a vida desses jovens possa ser motivo de agradecimento a Deus pelo tempo que estiveram conosco e foram presentes para nós aqui na Terra. Que o seu exemplo de luta e opção política sejam nossos guias para toda a vida!

15 – E agora, José?

Em um Fórum Social Mundial conhecemos pessoas verdadeiramente humanas e lutas libertárias que, como árvores mães, vão construindo, dia-a-dia, em todos os cantos e recantos “Um Outro Mundo Possível”, necessário e urgente. Esse novo mundo, portanto, já está sendo construído.

Temos de defender agüerridamente os povos e os governos de Cuba, Venezuela e Bolívia. Primeiro, porque sãos povos que estão em processo de libertação, lutam com destemor contra o imperialismo e a opressão capitalista neoliberal. Segundo, porque se estes países, ora estrelas socialistas cintilantes, forem sofucados, as trevas da indiferença pelo ser humano cobrirão toda a terra e estaremos em mais uma grande noite escura, sem a luz da utopia.

Deu para sentir que a integração político-econômico-social e cultural dos povos latino-americanos está em curso, de baixo para cima, com respeito à autodeterminação de cada povo. A cada Fórum aumenta o número de pessoas e entidades participantes. Afirma-se a convicção de que “Um Outro Mundo Possível” há se ser Socialista. Capitalista, jamais!

Delze dos Santos Laureano – delzesantos@hotmail.com

Gilvander Luís Moreira – gilvander@igrejadocamo.com.br


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[1] Frei Carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia e assessor da CPT, CEBs, SAB, CEBI e MST.

[2] Mestre em Direito Constitucional, professora de Direito Agrário da Faculdade Dom Hélder Câmara, advogada participante da RENAP – Rede Nacional dos Advogados Populares.

[3] Cf. o livro Vidas roubadas, sobre trabalho escravo.

[4] Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.















 
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