DEUS PRESENTE EM JESUS
(Homenagem a Jon SOBRINO)

Frei Cláudio van Balen(1) e frei Gilvander Moreira(2)

-----------Em Jesus interagem, paradoxal e harmoniosamente, o humilde e o sublime, o divino e o humano. Nele, o cotidiano desliza no transcendente e este se visibiliza no imanente. Não há oposição nem hierarquização. Em Jesus, o humano é entrada para o divino, o celeste se manifesta no terrestre, um contendo, reconhecendo e beneficiando o outro. Razão porque em Jesus nada há de rasteiro como trivial nem de solene em excesso. Como o divino não se rasteja, o humano não se soleniza. Não se justifica envolver Jesus com auréolas celestes e tampouco privá-lo do mais humano.
-----------O Concílio de Calcedônia (451) o caracterizou com “natureza” divina e humana. Aqui, natureza não é algo estático e imutável, mas ela irrompe, consistentemente, em seu existir e fazer. Duas facetas, portanto, que não podem ser ignoradas e, muito menos, separadas ou opostas como se em milagres houvesse o divino e em provas e angústias, o humano. O divino impregna o humano e vice-versa de modo que, na irrupção do divino, há o humano e no humano está contido o divino. E nisso há o que surpreende, estando uma dimensão integrada com a outra. Mar fascinante!
-----------“Feliz quem não se escandaliza de mim!”. Nada fácil. Em fragmentos, o mistério se revela e impõe, ora provocando admiração – “Nunca vimos algo igual!” – ora fazendo-se causa de escândalo – “Não é ele o filho de Maria e Jose?”. Progressivamente, na Galiléia, Samaria e Judéia, Jesus se revela, à primeira vista, em aparentes contradições mas, no fundo, com tal equilíbrio que chama a atenção de todos. Assim, ele testemunha que Deus é mais interior a nós do que imaginamos. A mística “encarnatória” revela a pessoa humanamente divina e divinamente humana. “Quem me vê, vê o Pai”.
-----------Por Deus ser mais, ele se faz reverenciar pela ética das Bem-aventuranças”. Nada de “ficar olhando para o alto”. No compromisso com a terra - com os outros - nos tornamos seguidores de Jesus, testemunhas de sua filiação divina prolongada em nós. A todo custo, havemos de solidarizar-nos com os que são aprisionados na impotência, mesmo que isto nos faça dar o brado da cruz. A vida, mesmo banhada de lágrimas, é convite para ser assumida como uma dádiva. Só desta forma seremos capazes de acolher à “mesa da vida” os que foram relegados à periferia, como pecadores e enfermos, excluídos e famintos.
-----------O divino irrompe em Jesus exatamente através de seus passos terrestres. Sua filiação divina não o eleva para cima do tempo e do espaço nem o distancia do comum dos mortais; pelo contrário, o solidariza com todos, sem exceção. Sua maneira de viver a condição humana nos revela Deus e valoriza a humanidade com toda a criação.
-----------Isto implica que o divino, em nós - humanizado - nos disponha, mediante gestos transformadores, a nunca confiar a última palavra a experiências negativas e banir toda forma de exclusão. Nesta perspectiva, até os mais sofridos poderão reconhecer que viver é bom. O Deus testemunhado por Jesus e por nós acolhido faz acontecer algo novo entre nós. Resta tanto a ser deixado para trás. “Eis que faço novas todas as coisas”. Somente por autêntica humanização, o divino se manifesta e se faz valer.

-----------Esta é a visão teológica de Jon Sobrino, fiel seguidor
-----------e intérprete de Jesus para os povos sofridos da América
-----------Latina. A punição que sofre é uma bofetada no rosto de
----------Jesus, uma traição à sua mensagem como Boa Nova. = = = == PÁSCOA 2007!

(1) Pároco da Igreja do Carmo, em Belo Horizonte, doutor em Teologia. E-mail: fclaudio@igrejadocarmo.com.br
(2) Mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica, assessor de CEBs, CEBI, MST e SAB. E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
















 
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